‘Temos um ambiente favorável para voltar a crescer’

Entrevistas

0

Por João Negrão

_CRI2742O presidente da Federação das Indústrias do Distrito Federal, Jamal Jorge Bittar, está bastante otimista em relação ao governo de Michel Temer e na possibilidade de recuperação econômica. Para ele, os fundamentos econômicos necessários para estabelecer a confiança dos investidores estão garantidos. Por outro lado, em relação ao apoio às indústrias do Distrito Federal, ele considera que é preciso avançar mais em relação a outras unidades da federação e aponta a “burocracia excessiva, um Ministério Público excessivamente rigoroso e a pressão fundiária” como os principais entraves para o desenvolvimento do setor.

Comece analisando a situação da indústria no Distrito Federal.

Existem melhores condições para instalação de empresas no DF. Isso é um trabalho natural para o setor produtivo. O estado tem, de forma geral, que sempre demandar para que ele nunca pare de dar subsídios que o setor produtivo precisa para investimento. Os estados que têm obviamente que fazer essa política para manutenção desses pleitos e os que têm os menores, obviamente, reivindicam de uma forma contundente. É o caso de Brasília, que tem uma carência maior do que os outros estados no sentido de incentivos não só de agentes políticos. É que precisamos sair de um ponto muito baixo, por conta dessa tradição do setor público da cidade. O setor produtivo de Brasília precisa avançar um tanto mais para uma participação maior na economia do que outros estados da federação. Então é um pouco estridente nesse sentido de promover algum sentido, mas por outro lado também, veja, nós não vemos essa questão como alarmista. A questão de empresas estarem debandando é relativa, não é um fato preponderante na questão do DF, as quantidades não são grandes e de um tempo para cá muitos fechamentos de empresas ocorreram no país inteiro. Tem fechamento de empresas em Goiás, em Minas, no Nordeste. Tivemos na verdade fatores de nível nacional que quando acontecem, obviamente, você busca que sejam um tema e uma argumentação mais sustentável no sentido local e busca esse evento nacional e traz como se fosse local. Na verdade, você tem problemas locais, mas tem contexto nacional que não ajuda, e tem uma soma de fatores.

A situação nacional acaba potencializando os problemas locais. Quais são esses problemas?

Os problemas locais são quase os mesmos nacionais. O que tem um pouco adicionalmente é no sentido de ação do estado, e um pouco mais de ambientar melhor a política de desenvolvimento. Nós focamos e passamos muito tempo dependendo do setor público. Ainda dependemos e por ausência de política para promover o desenvolvimento do setor produtivo ficamos em situação um pouco mais deteriorada, porque não temos o setor privado ativo para poder criar um contraponto. Então é uma dependência, e quando você é dependente de uma coisa e ela começa a variar e aí, obviamente, o tombo é maior. É o que aconteceu em Brasília. Na verdade, essa dependência ficou muito mais evidente na ausência da potência econômica. Outro problema de Brasília é que nós temos aqui um Ministério Público extremamente rigoroso, para não dizer exagerado, em relação a sua atuação local e que acaba inibindo muitas ações de forma exorbitante.

Em relação a que exatamente?

Em relação à aplicação, por exemplo, de política de desenvolvimento. O Ministério Público de forma geral pelo Brasil afora está em uma fase de muito enfrentamento. Eu não chamo de excesso de zelo, eu chamo de ausência de uma visão de sociedade, muito mais, é uma visão em relação ao institucional do MP corporativo do que uma ação de vigilância, que é uma função do Ministério Público, que é um vigilante da aplicação nacional.

Seria um pouco de imaturidade desses procuradores em geral?

Imaturidade! Isso é um problema na formação dos próprios procuradores. São procuradores que têm lá sua formação técnica, mas não têm maturidade para compreender a sociedade como um todo. É muito fácil você se assentar no argumento que defende rigorosamente a autorização, quando o próprio legislador prevê uma inteligência da aplicação da lei e não sempre a aplicação textual e literal, porque o próprio legislador não pode escrever o que contém em cada ato legislativo. Então é o bom-senso da aplicação legal. Essa independência do MP no distúrbio orçamentário acaba se tendo um rigorismo bastante maior de pessoas que não são engajadas, pessoas da sociedade. Basta olhar a formação de procuradores. Ela é sempre muito elitizada de uma maneira muito especial e de pessoas que estão desfocadas do conjunto econômico, inclusive viciadas com essa história do setor público se manter, ou seja, eles não veem o setor privado como um setor de colaboração com a sociedade e tende a tratar muito mais como adversário do que propriamente um parceiro. E isso se traduz não só em relação às políticas do setor privado, mas até as políticas de governo de abrangência geral são sempre um grande obstáculo, coisa que em outros estados ocorre, sim, também um exagero, mas na proporção menor. Aqui temos a maneira de atuar do MP bastante exagerada.

E isso chama muita burocracia?

Esse aí já é outro tema. Nós ainda temos a burocracia excessiva no Distrito Federal, temos uma questão fundiária muito complexa, muita invasão, e tudo isso cria uma dificuldade nas políticas de desenvolvimento, porque você tem áreas que poderiam estar disponibilizadas e não estão porque são invadidas. O custo do metro quadrado dos terrenos muito inflacionado é também um inibidor de investimento. Então aí são pontos que atingem muito o Distrito Federal: burocracia excessiva, um Ministério Público excessivamente rigoroso e a pressão fundiária.

Como que o senhor está vendo o governo Temer, a sua política econômica e os impactos na situação de Brasília?

Veja, independentemente de ideologia, tem se tentado e tem se conseguido manter expectativas. Comparando com a fase anterior, temos agora a inflação controlada, convergindo para o centro da meta, temos um equilíbrio orçamentário, temos o controle do câmbio de modo natural, não artificial, ou seja, você está tendo uma valorização do real, sem artifícios criados pelo Banco Central; está tendo encaminhamento de reformas previdenciária, tributária, política e trabalhista, com boas chances de o governo, se não no sentido ideal, que o ideal para mim seria de radicalizar essas reformas, mas estão sendo encaminhadas. Pouco tempo atrás mal se conseguia discutir temas que hoje o governo federal está conseguindo. Eram os mesmos temas que o governo anterior, que foi impedido, pretendia e sequer conseguia discutir, não tinham ambientes políticos para que andassem e hoje estão andando. Isso se faz muito mais importante do que esse pessimismo alarmista. Na hora que você dá um respiro para o mercado e ele sente os fundamentos, ele volta a ser investidor. Ele sabe como é a economia. Começa com a expectativa. O investidor hoje não se apoia mais em evasivos; ele se apoia em fundamentos, na gestão rigorosa de orçamentos, no controle inflacionário, no câmbio favorável… Nós temos um ambiente favorável para a retomada do crescimento.

 

Banner Post

Power by

Download Free AZ | Free Wordpress Themes