Depoimento de Palocci cai como uma bomba sobre o PT

Por Lucas Lyra

 

O depoimento de Antônio Palocci, ministro da Fazenda de Dilma Rousseff e chefe da Casa Civil da gestão de Lula à frente do Planalto, ao juiz Sério Moro, caiu como uma bomba sobre o núcleo político do PT. Ao contrário de outros homens de confiança de Lula como José Dirceu e João Vaccari Neto, presos em processos de corrupção, Palocci optou por colaborar com as autoridades e deixou ainda mais distantes as pretensões presidenciais de Lula para 2018.

Palocci confirmou as acusações de favorecimento ilícito, pagamento de propina e outros crimes já delatados por executivos da empreiteira Odebrecht, mas revelou uma relação ainda mais intensa entre o núcleo petista e a empresa. Segundo ele, os fatos já descritos na denúncia “dizem respeito a um capítulo” do “livro do relacionamento” da Odebrecht com Lula e Dilma. “Com uma relação bastante intensa, bastante movida a vantagens dirigidas a empresas, a propinas pegas pela Odebrecht para agentes públicos em forma de doação de campanha, em forma de benefícios pessoais, em forma de caixa 1, caixa 2″, disse Palocci.

Présal

Uma das declarações mais polêmicas foi dada fora do âmbito da denúncia em questão, relativa a Odebrecht. Palocci demonstrou plena intenção de colaborar comentando diversos tópicos fora do escopo da denúncia original. Segundo ele, Lula pretendia usar uma fatia dos recursos do pré-sal para financiar a campanha de Dilma Rousseff à presidência em 2010. “Mas o Palocci está aqui, Gabrielli (ex-presidente da Petrobras), porque ele vai lhe acompanhar nesse projeto para que ele tenha total sucesso e para que ele garanta que uma parcela desses projetos financie a campanha dessa companheira aqui, Dilma Rousseff, que eu quero ver eleita presidente do Brasil” relatou Palocci sobre uma conversa entre os três ocorrida no Palácio do Planalto.

Mais do que isso, Palocci afirmou que Lula queria que a “gambiarra orçamentária” financiasse todo um projeto eleitoral a longo prazo. “Ele (Lula) falou: Eu chamei vocês aqui porque o pré-sal é o passaporte do Brasil para o futuro, é o que vai nos dar combustível para um projeto político de longo prazo no Brasil, ele vai pagar as contas nacionais, vai ser o grande financiador das contas nacionais, dos grandes projetos do Brasil”, disse.

Pacto de sangue

Segundo Palocci, a transição entre os governos petistas preocupou executivos da Odebrecht, que temiam um enfraquecimento do “relacionamento” da empresa com o governo federal. O político relatou um encontro entre Emilio Odebrecht e Lula poucos dias antes da entrada de Dilma no Planalto.

“Foi nesse momento que o doutor Emílio Odebrecht fez uma espécie de pacto de sangue com o presidente Lula. Ele procurou o presidente Lula nos últimos dias do seu mandato e levou um pacote de propinas para o presidente Lula que envolvia esse terreno do instituto que já estava comprado, e o senhor Emílio apresentou ao presidente Lula”, afirmou Palocci.

O ex-ministro detalhou ainda o “pacote de propinas” oferecido a Lula. “O sítio pra uso da família do presidente Lula que ele já estava fazendo a reforma em fase final e ele disse ao presidente Lula que o sítio já estava pronto e também disse ao presidente Lula que ele tinha, à disposição dele, para o próximo período, para ele fazer as atividades políticas dele, 300 milhões de reais. Eu fiquei bastante chocado com esse momento porque achei que não era assim que era o relacionamento da empresa”, relatou.

Obstrução à Justiça

Palocci admitiu também que, em conjunto com Lula, tentou por diversas vezes obstruir as investigações da Operação Lava-Jato. “Eu me reuni com o ex-presidente Lula no sentido de buscar, vamos dizer, criar obstáculos à evolução da Lava Jato. Posso citar casos”, disse. Moro, que conduzia o depoimento na ocasião, preferiu não continuar no assunto. Mas, condenado a mais de 12 anos de reclusão pelo recebimento de propinas da Odebrecht, Palocci ainda terá bastante tempo para detalhar seus crimes a Justiça brasileira.

Petistas negam tudo

As defesas de Dilma e Lula negaram as afirmações de Palocci. Dilma disse que “a lógica que move o senhor Antonio Palocci é a mesma que acomete outros delatores presos por longos períodos. A colaboração implorada é o esforço de sobrevivência e a busca por liberdade. Isso não significa que se amparem em fatos e na verdade. É um recurso desesperado para se livrar da prisão. Em outros períodos da história do Brasil, os métodos de confissão eram mais cruéis, mas não menos invasivos e implacáveis.”

A defesa de Lula acusou Palocci de fabricar mentiras na tentativa de diminuir sua pena. “O depoimento de Palocci é contraditório com outros depoimentos de testemunhas, réus, delatores da Odebrecht e com as provas apresentadas. Preso e sob pressão, Palocci negocia com o MP acordo de delação que exige que se justifiquem acusações falsas e sem provas contra Lula. Como Léo Pinheiro e Delcídio, Palocci repete papel de validar, sem provas, as acusações do MP para obter redução de pena”, disse a defesa do ex-presidente em nota.

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