Crise do arroz faz lado populista e intervencionista de Bolsonaro aparecer

 Diante do aumento do preço do arroz, ao colocar o Ministério da Justiça na cola dos supermercados e produtores alimentícios, o presidente  Jair Bolsonaro  deixou transparecer no rosto a sombra do tradicional bigode de José Sarney, ao mesmo tempo que o ímpeto em gastar de alguns setores do Executivo o aproximam do paletó vermelho de Dilma Rousseff.

Analistas ouvidos destacam que Bolsonaro não tabelou os preços nem colocou os militantes radicais para vigiar as gôndolas nos supermercados. Mas, o discurso ligando o valor do arroz e do óleo, regulado pelo mercado, a uma questão de patriotismo, além de tentar isentar o Executivo das más decisões que provocaram a carestia, trouxe as cores políticas da década de 1980 para o presente. A crise econômica provocada pela pandemia de coronavírus e o medo das possíveis repercussões realçaram ainda mais o bigode do escritor na face do capitão reformado.

Cientistas políticos destacam que a verve liberal não faz parte do chefe do Executivo federal que, vez ou outra, deixa transparecer as antigas convicções e precisa recuar em nome do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do mercado. Mestre em sociologia política, doutor em direito e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Geraldo Tadeu Monteiro destaca que “Sarney nunca disse que professava do discurso liberal” que o mercado regula tudo. “O primeiro reflexo de Bolsonaro é agir de acordo com essa lógica do limite patriótico para o lucro. Naturalmente, depois que deu essa declaração, Paulo Guedes ligou para ele e deu um passo atrás, um passo que nunca volta exatamente ao ponto em que estava antes”, avaliou.

Monteiro destaca que é a mentalidade intervencionista que o aproxima, também da figura de Dilma. Porém, os dois parecem fazer movimentos diferentes. Dilma teve de ceder ao mercado em seu segundo mandato, enquanto Bolsonaro parece se afastar dos anseios de economistas à medida que governa. “A questão intervencionista é uma abordagem que liga os dois. Embora a Dilma seja muito mais qualificada. Bolsonaro repete meio dúzia de fórmulas que aprendeu em sua vida política”, ponderou.

Os guardiões

O analista político Melillo Diniz destaca que, antes de Guedes, Bolsonaro já mostrava a verve intervencionista. “Quem vota em Bolsonaro pelas suas colocações econômicas não sabe somar. Muita gente que está na política — o Sarney é um exemplo, outro é a Dilma — tem a visão que cabe ao Estado o controle do mercado. Esse controle ocorre por diversos mecanismos, fiscal, pressão política. Não compararia Bolsonaro só com Sarney, mas, também à Dilma e ao Temer que, por meio de impostos, desoneração, tentou controlar o mercado. Eu me lembro da Dilma brigando contra a bomba de combustível”, comparou.

Para Melillo, mesmo sinalizando para a população com uma postura intervencionista, Bolsonaro enfrentará turbulências. “Vai aumentar a percepção do eleitorado, mal-humorado com o quadro nacional. Bolsonaro é um populista de combate, e tem uma intuição importante sobre o que o povo pensa. Mas, em um governo de incompetentes, deve ficar em ziguezague. E sempre teremos um cenário de embate entre o Ministério da Economia e os outros ministérios, pois é um governo sem projeto, que vive nesse limiar entre a intuição e a falta de juízo. O Sarney tomou medidas fiscais, mas tinha uma ação coordenada. O assunto é descoordenado, mas não me surpreenderá se, em breve, nós tivermos os guardiões do Bolsonaro, agindo como fiscais do Sarney”, supôs.
Com informações do CB

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